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Dani Carneiro

Poemas, contos, divagações, manifesto e música. Assim apresenta-se o Zero e.zine escrito pelo curitibano Rafael Vinicius Losso, fundado em setembro de 2002. Atualmente o zine eletrônico tem quase mil assinaturas, e a novidade é que Rafael disponibilizou uma rádio experimental, para que as pessoas possam ouvir as músicas escolhidas por ele, enquanto lêem o zine. O sucesso do Zero e.zine não é só pelo fato de o Rafael mostrar seu rosto e trejeitos, de segunda a quinta à meia-noite, no Jornal da MTV. Rafael tem conteúdo, sua escrita tem substância, e isso vem se concretizando a cada nova empreitada.

Desde que participou do concurso Caça VJ, e estreou no Jornal da MTV, o literato VJ é o parêntese na emissora. Rafael tem feito diferença num espaço totalmente saturado. Nas finais do Caça VJ, surgiu a idéia de juntar seu zine, com a linguagem videoclíptica da MTV. Mais tarde já escalado para apresentar o Jornal da MTV, Mauro Bedaque, diretor do programa teve a iniciativa de incluir as poesias, e foi daí que surgiu o quadro Clipe Poesia, que causou as mais diversas reações ao público da MTV, não deixando Rafael passar despercebido.


Todo mundo imagina que ao se tornar VJ e aparecer na televisão, imediatamente o cidadão vira um astro, que mal pode andar na rua por causa dos fãs e curiosos perseguindo o tempo todo. Diferente da maioria, Rafael não se deslumbrou com o novo mundo que viu abrir-se diante de seus olhos, "Não fui engolido pelo esquema publicitário da coisa,  eu tô conseguindo fazer as coisas da maneira que eu acredito, devagar, mas com consistência". Um ano e pouco depois do Caça VJ, Rafael já está familiarizado com a nova vida e a cidade de São Paulo, Rafa diz "a sensação que eu tenho é a de um estudante que vai para outra cidade, e conhece algumas pessoas, e outras acabam "conhecendo” ele por ser um estranho ali". Com as mudanças também se livrou de atividades penosas: "Agora eu não preciso fazer coisas que eu não gostava, como aulas de direito e tal...". 

 

Pergunto a ele se incomoda o fato de muitas pessoas o acharem intocável, porque parecem não acreditar que ele lê os e-mails ou os comentários do seu blog, ou por acharem que o Rafa ficou rico e esnobe só porque ganhou um concurso da MTV, tornando-se apresentador de um programa na TV, ele responde sereno: "São poucas as pessoas que falam na televisão que ela é um canal de comunicação perfeito. Perfeito porquê é imediato e em todos os lugares. Com som e imagem. Mas com um grande defeito: não permite a interatividade. É um meio muito ditatorial: eu digo, você escuta. Ou muda o canal. Não tem meio-termo. Aí, se você quer ver o programa e surge uma opinião, ou um pensamento que você queria dizer, não tem pra quem dizer. Eu acho que com a Internet as pessoas estão mudando a maneira de encarar a comunicação, participando mais, saindo do gueto cultural imposto pelo modelo. É difícil no começo, quem começa sempre apanha mais, sempre têm aqueles que não entendem a idéias, mas, com o tempo, acho que essa distância acaba desaparecendo. O mito cai".

Rafael é um apaziguador por natureza. É possível notar isso através de sua arte escrita ou por suas performances nos clipes poesias, mas também através de sua música, sempre passando uma boa mensagem. Formou a banda Jeremy no inverno de 2003 praticamente por trocas de e-mails. A história da formação da banda é bem interessante: "A banda surgiu de um e-mail, do Bruno Ghizoni, pra mim via Zero e-zine. Na verdade o Bruno é irmão de um amigo de um amigo meu". Confuso? Não. Rafa esclarece: "Assim, ó, tem um amigo meu que tem um colega de faculdade, aí em Curitiba (Filosofia/UFPR), que, por sua vez, tem um irmão que veio morar aqui em São Paulo. Ele deu o toque, e o Bruno mandou um e-mail porque ficou sabendo que eu tava querendo montar uma banda, e porque curtia os textos dos clipes do Jornal da MTV. Enfim, como o Bruno não conhecia ninguém aqui também, a gente começou a ensaiar direto".


E essa história de que a banda gravou um disco demo em oito dias? Onde é possível encontrar esse material? "A banda teve um começo muito rápido, a gente trocou uma idéia, o Bruno foi pra casa, tirou algumas letras do Zero e musicou. No dia seguinte, a gente já começou a trabalhar em umas cinco músicas. No final de semana, tínhamos umas oito, e coincidentemente eu tava indo pra Curitiba passar o fim de semana. Aí o Bruno resolveu ir junto, pra gravar as nossas músicas no computador do irmão dele, e foi o que rolou. A gente gravou as músicas e colocou no site. Não chegamos na forma disco ainda... Talvez a gente nunca chegue... Acredito muito (muito!) na Internet como forma de distribuição de idéias e pensamentos, então acho meio desnecessário o trampo físico em distribuição. Quem quiser ouvir, pode ouvir, a qualquer momento, as músicas de qualquer lugar do mundo".

Pergunta mais do que óbvia que logo surge é o por quê da banda ter sido batizada de "Jeremy", já que este nome remete à música e ao clipe do Pearl Jam, que conta a história de um menino atormentado pela incompreensão dos pais e da sociedade, e que acaba cometendo o suicídio diante da atordoada platéia [colegas de classe e telespectadores]. Rafa explica: "A gente tava procurando um nome e não conseguia achar. Ai a gente tava no cinema, conversando sobre isso, e pensou na historia do cara da musica, que não consegue ser ouvido, aquela angústia toda, e daí a gente pensou, taí, podia ser um bom nome pra banda, né... Sempre que eu vou ao cinema aqui em São Paulo eu penso naquela história do cara que entrou com uma metralhadora e saiu atirando em todo mundo. Eu acho muito louca essa realidade compartimentada em que a gente vive, em que, se você esta ok com a sua aparência, e tudo o mais, está ok. Acho que de alguma forma Jeremy tem a ver com tudo isso".

A banda Jeremy tem um site conceitual muito bonito na Internet, com fotos, frases e textos curtos que dão todo o clima da atmosfera da banda. No site também tem um espaço onde é possível fazer download das músicas, e ainda acompanhá-las lendo as letras. "Atualmente estamos tentando sair do plano "ensaio", pra um plano "ao vivo"... Mas essa encarnação está difícil...A gente deve gravar uma segunda demo, aqui em casa mesmo, pra entregar para uma galera de uns bares aqui de São Paulo, (Funhouse, Atari, etc), pra ver se consegue marcar os gigs. Mas acho que o futuro brilha muito, porque o potencial ta aí fora...", conclui filosófico Rafael Losso.  Sobre o som da banda Rafa conta: "A gente não tem bateria, ainda, por um pouco de opção, e um pouco de circunstância, então acabamos saindo um pouco do modelo tradicional de banda, quiçá de rock. O que é bom!”.
 

E VJ, põe mesmo a mão na massa mesmo? No caso de Rafael, põe sim. A participação de Rafa na MTV não se reduz apenas à apresentação de videoclipes, o engajado rapaz mete a cara no trabalho. "Eu dei sorte de cair no núcleo de jornalismo, que me adotou desde o Caça VJ. E no jornal, existe uma preocupação em fazer diferente, em arriscar, em inovar (vide o quadro do Rafa). Cada matéria é milimétricamente assistida, debatida, criticada. Cada cabeça é comentada. Existe uma preocupação. Então eu consegui essa abertura, essa possibilidade, por estar ali sempre me envolvendo nas discussões, nas reuniões, aí pedi pra editar também, eles deixaram, e fui indo...”.
"Quanto aos outros VJ´s, eu acho que tem muita coisa embutida, no lance VJ que é o seguinte: você tem que se expressar. O que eu curto é essa coisa da etapa produtiva, de participar, e tal. Mas eu não sou o único. O Paulo Bonfá, por exemplo, é completamente ativo em todas as etapas de produção do programa. Na época do MTV No Ar, o próprio Zeca Camargo dirigia o programa, e o núcleo. E existem vários outros exemplos”.

A vida de VJ além de muito trabalho, também trouxe grandes desafios e conquistas: "Acho muito foda o desafio diário em me expor, em simplesmente deixar que as pessoas flagrem as minhas inseguranças e imperfeições. E ficar ok com isso. Sair um pouco debaixo da pedra. O resto acontece muito esporadicamente, essas coisas sensacionais, como VMB, viagens, etc. É que, no fundo nem são sensacionais assim, são muito trampo também. Acho engraçado quando você percebe que, alguém que você conhece da TV, alguém de banda, sei lá, é que esse alguém te conhece também. Tipo o Lobão vir falar comigo, e chamar pelo nome. Pessoas como o Otto. A Fernanda Takai e o John. O Gabriel dos Autoramas, que eu tenho autógrafos, convivendo com você".

Além de manter a banda, escrever no Zero e-zine, mergulhar de cabeça no trabalho, a mais recente novidade vinda de Rafael Losso é o seu blog no site da MTV. "Acredito na comunicação. Muito". Rafael como a maioria dos blogueiros, escreve um pouco mais sobre sua vida, pensamentos que rolam pela sua cabeça, e suas impressões do mundo. Atualizado de forma espontânea, o blog mantém espaço para comentários dos internautas, e como todo espaço aberto as mais diversas opiniões, de vez em quando, algumas críticas não construtivas, e bobagens são escritas. Num dos posts Rafa abriu o jogo: "Eu curto pacas críticas. Eu realmente sei dos meus defeitos, das minhas falhas, dos meus erros, do tamanho da minha alma".  Assim conclui Rafael Losso, que não para de se reinventar, e de fazer a diferença no presente que brilha pra ele. 

Links do Rafael Losso:

http://www.zeroezine.com.br

http://www2.mtv.com.br/blogdorafa

http://www.jeremy.com.br/

 

Matéria escrita ao som de "Lost Dogs" do Pearl Jam.

31*3*2004

Dani Carneiro
Dani Carneiro faz parte do proletariado curitibano, endividada pelo álbum de raridades do Pearl Jam, tentando fazer seu nome brilhar numa placa de neon em algum boteco na Ciudad del Este.

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