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O Fã, a Internet e outros bichos...
Dani Carneiro

O fã é um cara obstinado. Tem simplesmente tudo do ídolo, desde o autógrafo até a toalha usada no show, ou a garrafa de água com um pouquinho da saliva de seu astro favorito e até palheta personalizada. Os fãs mais ousados antigamente, eram aqueles que viajavam vários quilômetros em ônibus nada confortáveis e passavam intermináveis horas diante do estádio ou do local do show de sua banda amada, comendo sanduíches de queijo e mortadela. Também haviam as "groupies", moças "avançadinhas" que acompanhavam seus ídolos onde quer que fossem, nos shows e nas viagens [tanto de um lugar para o outro, quanto nas viagens "psicodélicas"]. Além disso proporcionavam aos seus ídolos muito mais que o prazer da amigável relação "fã /astro de rock". Elas eram o "sexo" do chavão: "sexo, drogas e roquenrou". Não é a toa que a atriz Liv Tyler tem esse sobrenome e os lábios carnudos de Steve Tyler [Aerosmith]. Sua mãe era uma "groupie" doidona, e numa de suas andanças engravidou do ídolo. Outra famosa do mundo do roque que começou como "groupie" da banda Echo & The Bunnymen é a viúvona Courtney Love.

Hoje em dia a história é diferente. Com a massificação dos meios de comunicação, com a facilidade da Internet, e a Casa dos Artistas(!), ficou mais fácil ser fã. Atualmente o fã de verdade é aquele figura que se junta com os pais do seu ídolo, colhe informações da infância remota de seu ser amado e monta um fã clube, assiste os shows no backstage, ou então constrói uma página na Internet. Ah! E a Internet, essa bandida! Com suas atualizações minuto a minuto, destruiu por completo a nostalgia daqueles fãs que curtiam "trocar figurinhas", comprar revistas em "sebos" para garimpar fotos, reportagens, posters, álbuns antigos, CDs com shows gravados na "moita", matérias e toda espécie de material antigo dessa ou daquela banda. Em compensação, os que sofreram para conseguir tanto material, agora pode ter a comodidade de em dois clicks saber o que está acontecendo nesse exato momento com seu ídolo. E ter acesso a qualquer tipo de informação e imagens. Ou então receber um email respondido pelo próprio ídolo! A Internet tornou-se o paraíso de qualquer fã: MP3, sites oficiais, não oficiais, sites de gente que ama e odeia o seu ídolo. Você pode saber a próxima parada da turnê, os locais de venda dos ingressos, e se quiser, constrói seu próprio site, declarando o seu amor, e montar uma rádio com suas músicas favoritas. Isso tudo é uma maravilha! Fã que é fã nos tempos de hoje tem site renomado na Internet, é amigo do ídolo ou no mínimo trabalha com o "ser amado". Os fã clubes viraram instituições tão bem organizadas, que se antigamente era necessário pagar uma pequena taxa e enviar uma foto 3x4 para ter a carteirinha de associado, hoje em dia para se associar você tem que no mínimo mandar um currículo e responder um questionário massacrante, comprovando seus conhecimentos sobre a vida do ídolo. Isso para aqueles que são fiéis a uma determinada banda ou artista, porque a "globalização do fã também compreende aqueles que são fãs de umas 300 bandas ao mesmo tempo! O triste da Internet é saber que aquela banda que você tanto admirava, e que "odiava ser fotografada e/ou dar entrevistas", tem milhões de ensaios fotográficos espalhados pela rede, e que aquela sua "pasta", com recortes que você tanto lambia e se orgulhava de levar para todo lugar, com mais de 1000 fotos, agora é piada diante das possibilidades da Internet. O valor sentimental de todo o seu material conseguido através dos anos, acaba indo para as "trevas", quando você vê fotos que nunca imaginou, e entrevistas que você mal sabia que existiam. O destino da sua "pasta de recortes" acaba sendo o fundo escuro de um guarda-roupas, servindo de comida para as traças. Enquanto milhares de outras fotos, MP3, matérias e reportagens entopem disquetes e a memória de muitos computadores por aí. Tem muito fã que se enquadra perfeitamente nesse contexto.

Definitivamente essa é a globalização do "fã". Isso me fez lembrar do filme "Priscila, a Rainha do Deserto", onde um dos protagonistas do filme carrega dentro de um "vidro com formol" pendurado no pescoço, "cocô do Abba"! Parece que agora os ídolos perderam um pouco daquele "encanto", daquela coisa de serem intocáveis. Distribuem "palhetas" nos shows, como Papai Noel distribui balas nos supermercados! Bons e velhos tempos onde ter um fio de cabelo do ídolo era o auge da idolatria, da conexão fulminante entre ídolo e fã. Hoje você compra tudo, absolutamente tudo do seu ídolo pelos sites oficiais, onde existe uma parte reservada para o "marketing" das bandas. Ou então por R$ 9,90 nas bancas!

24*2*2002

Dani Carneiro
Dani Carneiro faz parte do proletariado curitibano, endividada pelo álbum de raridades do Pearl Jam, tentando fazer seu nome brilhar numa placa de neon em algum boteco na Ciudad del Este.

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